Artigo de opinião de Pedro Proença Cunha, publicado no Expresso, alerta para a necessidade de integrar ciência, território e política na gestão do risco de cheias.

O investigador do MARE/ARNET e professor catedrático da Universidade de Coimbra, Pedro Proença Cunha, defende uma mudança de paradigma na gestão das bacias hidrográficas, sublinhando a necessidade de uma abordagem verdadeiramente integrada.
Num artigo de opinião publicado no jornal Expresso, o autor analisa o caso recente das cheias na bacia do Mondego e questiona a eficácia das respostas centradas exclusivamente na engenharia hidráulica, sanitária e geotecnia.
Apesar da relevância destas áreas, Pedro Proença Cunha alerta que esta perspetiva é insuficiente para compreender a complexidade dos sistemas fluviais, que resultam da interação entre processos naturais, usos do solo, dinâmicas económicas e decisões políticas.
“Uma bacia hidrográfica não é apenas um problema de engenharia. É um sistema complexo, onde interagem processos naturais, usos do solo, dinâmicas económicas e decisões políticas. Pensá-la apenas do ponto de vista hidráulico é reduzir a realidade a uma dimensão insuficiente —
e, por isso, arriscada”.
Pedro Proença Cunha destaca também que, nas últimas décadas, têm sido produzidos vários relatórios técnicos focados sobretudo na dimensão hidráulica, mas sem uma mudança estrutural na forma de analisar e gerir estas bacias. Perante a repetição de episódios extremos, defende que é necessário repensar o enquadramento da análise e das soluções.
Uma das questões críticas apontadas prende-se com a ocupação das planícies de inundação. Apesar do consenso técnico sobre a necessidade de reservar estas áreas para usos compatíveis com a dinâmica natural dos rios, continua a verificar-se a sua ocupação urbana, aumentando a vulnerabilidade ao risco de cheias.
O artigo reforça a importância da Gestão Integrada de Recursos Hídricos.
“Uma gestão verdadeiramente sustentável exige integração. Geólogos que compreendem a dinâmica sedimentar dos rios, geógrafos que analisam a evolução da paisagem, biólogos que estudam ecossistemas fluviais, especialistas em restauro ambiental, engenheiros agrícolas e florestais, urbanistas e arquitetos paisagistas: todos têm um papel a desempenhar. E não menos importante, as autarquias e as populações locais, que vivem com as consequências das decisões tomadas”, explica.
Neste contexto, Pedro Proença Cunha defende a criação de grupos interdisciplinares permanentes, integrando diferentes áreas do conhecimento e envolvendo também decisores políticos e comunidades locais.
Para o investigador, só uma abordagem integrada permitirá não apenas melhorar a qualidade das decisões, mas também reforçar o debate público em torno da gestão do território e dos recursos hídricos.
“Se queremos reduzir riscos futuros, não basta estudar o que aconteceu. É preciso mudar a forma como pensamos o território.”
Texto: Vera Sequeira
Imagem capa: IA
Foto perfil: © Academia das Ciências de Lisboa