MARE coordena ação de translocação de lampreias no Mondego pelo 2.º ano consecutivo

Numa operação integrada nos projetos de conservação em curso, foram translocados cerca de 30 exemplares de lampreia no Rio Mondego na semana passada, numa iniciativa que conta com a participação de autarquias, a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra e a Universidade de Évora. A translocação é um processo que consiste em capturar lampreias e libertá-las em locais mais próximos das zonas de desova, aumentando assim as probabilidades de reprodução da espécie. Novas largadas estão previstas até ao final de abril. Trata-se de uma medida excecional, aplicada num contexto em que as populações apresentam níveis preocupantes de declínio.

A ação teve cobertura televisiva da SIC, com uma reportagem emitida no Primeiro Jornal, evidenciando o interesse público na conservação de uma espécie cuja presença está profundamente ligada à identidade cultural, económica e também ecológica da região de Coimbra.

Como sublinhou Pedro Raposo de Almeida, Diretor do MARE e especialista nesta espécie, “Esta translocação, se fosse em anos normais em termos de população de lampreias, não era necessária. Mas como as coisas estão mal em Portugal, em Espanha, em França, nós achamos que com estas medidas aceleramos o processo de recuperação e repovoamento aqui a montante de Coimbra.”

De facto, a investigação levada a cabo pelo MARE, liderada por Pedro Raposo de Almeida, demonstra uma redução acentuada do número de lampreias que tem sido registada em Portugal. A tendência repete-se em várias bacias hidrográficas da Europa Ocidental. No caso do Mondego, a comparação é particularmente expressiva: de anos excecionais em que a equipa de investigação fazia contagens na ordem das 20 mil lampreias, passou-se para cerca de 300 indivíduos contabilizados no açude-ponte de Coimbra no último ano.

Entre os principais fatores que contribuem para este declínio estão as alterações nos rios, muitas de origem humana, que dificultam a migração. Ainda assim, existem sinais encorajadores. As cheias registadas este ano parecem ter desempenhado um papel positivo, ao facilitar a progressão dos animais no rio e ao reduzir um pouco a pressão da pesca.

Apesar deste contexto favorável pontual, a recuperação da espécie depende de fatores mais estruturais e de longo prazo. O ciclo de vida desta espécie de lampreia é de 7 a 8 anos, e desenvolve-se entre o rio e o mar. Não depende assim apenas das condições fluviais, mas também do estado das populações marinhas. Pedro Raposo de Almeida alerta que é essencial que este ano se consiga garantir uma boa reprodução da espécie, mas que isso não garantirá que os próximos anos sejam necessariamente favoráveis, pois tendo em conta o ciclo de vida da espécie e os dados da investigação do MARE, os próximos anos não serão anos tão bons. O investigador sublinha assim a necessidade de estabilidade e manutenção das ações de conservação e de recuperação.