Ciência, oceano e mercado de trabalho em debate no Dia do Mar em Ciências

No evento anual dedicado às ciências do mar, organizado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o MARE/ARNET esteve envolvido com a participação de vários investigadores e professores.

 

No passado dia 30 de abril, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa) acolheu o Dia do Mar 2026, um evento que colocou em diálogo a investigação científica, a formação avançada e o tecido empresarial ligado ao oceano. Sob o mote "O mar que nos sustenta: ciência, sustentabilidade e inovação", o programa reuniu 97 participantes, entre estudantes de mestrado e doutoramento, docentes, investigadores e representantes de diversas instituições e empresas do setor.

A edição do Dia do Mar 2026 marcou uma viragem relativamente às edições anteriores: o evento alargou-se a toda a comunidade de CIÊNCIAS ULisboa com oferta formativa, investigação ou projetos na área do mar, reunindo pela primeira vez contributos de biologia, ecologia, geologia, geofísica e oceanografia, entre outras áreas.

O objetivo foi mostrar a diversidade da investigação que se faz nesta área, criar um espaço de encontro entre diferentes áreas científicas, promover novas ligações e maior interdisciplinaridade, e ainda motivar os estudantes a seguirem um percurso ligado ao mar", explica Susanne Tanner, professora do Departamento de Biologia, investigadora do MARE/ARNET e membro da Comissão de Coordenação do Mestrado em Ciências do Mar.

Romana Santos, também professora do Departamento de Biologia, investigadora MARE/ARNET e coordenadora do Doutoramento em Ciências do Mar, sublinha que este alargamento reflete uma vontade crescente de aproximar quem, dentro da faculdade, partilha o oceano como objeto de estudo, mas nem sempre tem oportunidade de se cruzar.

Para além da presença de uma centena de participantes, estiveram em mostra 45 posters de alunos de mestrado e doutoramento, que refletiram a amplitude da investigação desenvolvida no seio da comunidade, cobrindo desde a ecologia marinha e a oceanografia à gestão e conservação dos recursos, passando pela poluição e alterações climáticas e pelo ordenamento do espaço marinho.

"Foi possível perceber que há muitas pessoas na FCUL ligadas ao mar, com vontade de se conhecerem melhor, partilhar ideias e colaborar", acrescenta Susanne Tanner.

Bernardo Duarte, investigador, professor e coordenador do MARE/ARNET em CIÊNCIAS ULisboa destacou que o centro de investigação é uma infraestrutura viva, com capacidade técnica, uma rede alargada de investigadores e polos dispersos por todo o país, das zonas costeiras às ilhas, que multiplica as oportunidades de desenvolver trabalho científico de fundo.

 

O oceano como motor económico

A keynote coube a José Soares dos Santos, presidente da Fundação Oceano Azul, membro do Conselho de Administração do Grupo Jerónimo Martins e alumnus de CIÊNCIAS ULisboa, que traçou um panorama inspirador sobre a economia do conhecimento e o papel central do oceano nessa equação. Com uma carreira construída na interseção entre a biologia marinha e o mundo empresarial, defendeu que Portugal "está no centro do mundo, não na periferia" quando se pensa em termos de território marítimo e posicionamento geográfico face aos principais mercados de consumo. Lembrou ainda que, somando o território à Zona Económica Exclusiva, Portugal sobe diretamente para o 20.º lugar na tabela dos países com maior área soberana, o que representa uma responsabilidade e uma oportunidade para que a ciência assuma um papel central no futuro.

Recordou que o mercado global do oceano representa já um valor na ordem dos 2,2 biliões de dólares e que setores como a biotecnologia marinha crescem a 8,5% ao ano.

"Aquilo que desconhecemos alberga sempre oportunidade. Quanto melhor conhecermos o oceano, mais oportunidades vão surgir", afirmou.

Para os estudantes presentes, a mensagem foi direta: "Vocês saem daqui com uma capacidade de análise, de entender o mundo, que é única. Não deixem que isso passe despercebido no mercado de trabalho."

 

 

 

 

 

Uma conversa sobre o mar que nos sustenta

O evento culminou numa mesa redonda moderada por Miguel Miranda, diretor executivo da AIR Centre e antigo presidente do IPMA, com a participação de Tiago Carriço, cartógrafo e gestor de desenvolvimento de negócio na GeoXYZ; Marco Alves, CEO e presidente do conselho de administração da WavEC; João Navalho, presidente e fundador da NECTON; Catarina Grilo, diretora de conservação e políticas da WWF Portugal; Anabela Oliveira, investigadora de geologia marinha no Instituto Hidrográfico; e Ivone Figueiredo, diretora do Departamento do Mar e Recursos Marinhos do IPMA.

O debate percorreu temas como a energia eólica offshore, a aquacultura, os gémeos digitais marinhos, a conservação marinha e os desafios da transferência de conhecimento entre a academia e o mercado. Da conversa emergiu um consenso claro: é urgente uma abordagem interdisciplinar, que cruze ciências naturais, economia, engenharia e políticas públicas. A mensagem final para os estudantes foi de abertura e curiosidade: as oportunidades existem, mas é preciso estar disponível para as reconhecer e para trabalhar nos interstícios entre áreas do conhecimento, precisamente onde o valor se cria.

Para o MARE, o Dia do Mar é também uma oportunidade de se dar a conhecer a futuros investigadores. Muitos dos docentes de CIÊNCIAS ULisboa nas áreas do mar são investigadores do centro, e são precisamente esses laços entre ensino e investigação que levam muitos estudantes de mestrado e doutoramento a desenvolver as suas teses no âmbito do centro.

 

Texto e imagem: Vera Sequeira