
As recentes cheias registadas em vários rios portugueses poderão ter um efeito positivo inesperado na dinâmica populacional da lampreia (Petromyzon marinus), uma espécie com elevado valor ecológico, cultural e económico.
Apesar dos impactos associados ao mau tempo, o aumento do caudal e da turbidez dos rios pode funcionar como estímulo à migração desta espécie, facilitando a sua subida do mar até às zonas de reprodução. Estas condições favorecem a conectividade fluvial e criam ambientes mais adequados à desova e ao desenvolvimento larvar.
“Eu tenho esperança que com esta situação que tivemos das cheias e de caudais generosos na maior parte dos rios, um maior número de animais tenha conseguido chegar mais a montante, a zonas de reprodução e que, fazendo a postura, depois tenhamos um período muito favorável de crescimento de larvas”, diz Pedro Raposo de Almeida, Diretor do MARE e do Laboratório Associado ARNET e Professor na Universidade de Évora, em entrevista ao Jornal de Notícias.
O mau tempo teve também um efeito indireto relevante no âmbito da pesca, num contexto em que a gestão do recurso tem sido seguida pela Comissão de Acompanhamento da Lampreia e do Sável, criada pelo Governo em 2025, da qual faz parte Pedro Raposo de Almeida. A interrupção da atividade durante vários dias funcionou como um verdadeiro “defeso natural”, permitindo que mais indivíduos atingissem as zonas de reprodução sem pressão de captura. “A natureza já, na prática, fez a paragem que nós devíamos fazer em termos de proteção do recurso”, afirma o investigador e professor. Na sequência das condições meteorológicas adversas, foram adotadas medidas excecionais, incluindo ajustes ao calendário da pesca para compensar os dias de inatividade, como o prolongamento da época em vários rios portugueses.
Após um 2025 considerado desastroso, a atual “safra” já se revela “bastante melhor”, com a elevada procura a fixar os exemplares de lampreia na casa dos 100 euros. O otimismo e a consciência ecológica são de tal forma evidentes que os pescadores do Lima e do Cávado abdicaram de pedir o prolongamento das capturas, num esforço deliberado para deixar a lampreia desovar e assegurar a abundância e a sustentabilidade futuras deste valioso recurso.
Ainda assim, o cenário deve ser interpretado com cautela. A lampreia tem registado um declínio acentuado nas últimas décadas, associado a fatores como as alterações climáticas, a poluição e as barreiras à migração. A recuperação da espécie será lenta, devido ao seu ciclo de vida e necessidade de condições favoráveis ao longo de vários anos.
Este episódio evidencia a complexidade dos sistemas fluviais, onde eventos extremos podem desempenhar um papel relevante na renovação ecológica. Para o MARE | ARNET, compreender estas dinâmicas é essencial para apoiar estratégias de gestão sustentável, conciliando conservação, atividade económica e adaptação às mudanças ambientais.
Texto: Vera Sequeira
Imagens: Grupo de Investigação "FBCM - Biologia, Conservação e Gestão de Peixes", MARE - Universidade de Évora