Investigadores do MARE confirmam pela primeira vez a presença da gambúsia no Arquipélago da Madeira

Uma equipa de cientistas, que inclui os investigadores do MARE Inês Órfão, Manuel Biscoito, João Canning-Clode e Filipe Ribeiro, confirmou pela primeira vez a presença da gambúsia (Gambusia holbrooki) no arquipélago da Madeira. Os resultados foram recentemente publicados na revista científica BioInvasions Records e constituem um marco importante para a compreensão das ameaças que afetam os ecossistemas de água doce do arquipélago. 

A gambúsia, um pequeno peixe de água doce nativo da costa leste dos Estados Unidos, é atualmente considerada uma das espécies invasoras mais problemáticas a nível mundial. Introduzida em diversos países ao longo do século XX com o objetivo de controlar mosquitos, esta espécie expandiu-se amplamente devido à sua elevada capacidade de adaptação e reprodução.

Apesar de existirem relatos antigos que sugerem a sua presença na Madeira, esta espécie nunca tinha sido identificada formalmente. O estudo, liderado por Inês Órfão, combinou análises morfológicas e genéticas de espécimes recolhidos em lagos artificiais urbanos na ilha da Madeira e num troço de ribeira em Porto Santo, confirmando que se tratava de Gambusia holbrooki.

Segundo o artigo, a espécie está presente na Madeira há várias décadas, mas a sua chegada a Porto Santo é mais recente e poderá estar associada à fuga acidental de peixes mantidos para fins ornamentais, tal como aconteceu no arquipélago dos Açores.

Trata-se de um predador omnívoro generalista, capaz de consumir zooplâncton, larvas de insetos e peixes jovens. A sua capacidade de tolerar variações ambientais, aliada a um ciclo reprodutivo rápido, pode levar à drástica redução de espécies nativas, alterando as redes tróficas e comprometendo a qualidade ecológica das massas de água. 

“Ao contrário do que acontece em regiões continentais, os ecossistemas de água doce têm menos espécies e algumas delas são únicas, só existem nestas ilhas”, destaca a investigadora Inês Órfão em entrevista ao jornal Público. “Se uma espécie afectada [pela gambúsia] for endémica, pode ter uma redução significativa e, no extremo, levar à sua extinção".

A erradicação de espécies invasoras em ecossistemas insulares é um processo complexo que exige um investimento contínuo. A equipa de investigação salienta que a prevenção de novas introduções e a deteção precoce de focos de dispersão constituem as estratégias mais eficazes.

O estudo realça igualmente a importância de campanhas de sensibilização sobre a introdução acidental ou deliberada de peixes exóticos em lagos, ribeiras e outras massas de água, prática que continua a contribuir para a disseminação de espécies invasoras em Portugal.

 

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Texto de Patrícia Carvalho