O que é uma “cheia centenária”? Paulo Diogo explica o risco hidrológico e a gestão de cheias durante os recentes episódios meteorológicos extremos em Portugal

Na sequência dos recentes episódios de tempestade que colocaram várias regiões do país sob risco elevado de cheia, particularmente na região de Coimbra, Paulo Diogo, investigador do MARE e do ARNET e Professor na NOVA FCT, foi convidado a intervir na RTP Notícias para esclarecer os mecanismos hidrológicos em causa.

Durante a emissão em direto, abordou o conceito de “cheia centenária”, explicando que se trata de um conceito estatístico associado a um período de retorno e não de uma previsão determinística. Uma cheia centenária, esclareceu, “refere-se a um evento com probabilidade estatística de ocorrer, em média, uma vez a cada cem anos. Importa salientar que isso não significa que não possa ocorrer em intervalos mais curtos. Além disso, a relação entre períodos de retorno e magnitude da cheia não é linear, sendo que a diferença entre uma cheia de 50 anos e uma de 100 anos representa um impacto hidrológico desproporcionalmente superior.”.

Para além da clarificação terminológica, Paulo Diogo sublinhou o papel central da monitorização na gestão do risco de cheia. A recolha contínua de dados, não apenas em momentos de crise, mas ao longo de todo o ano, é essencial para compreender o comportamento dos sistemas e antecipar picos de caudal. Utilizando a bacia do Mondego como exemplo, explicou que a gestão das barragens assenta em:

  • Monitorização hidrológica em tempo real
  • Previsões de precipitação e caudais afluentes
  • Gestão das margens de capacidade de encaixe nas albufeiras
  • Limiares de segurança destinados a prevenir riscos estruturais

O investigador recordou também que as grandes barragens são dimensionadas para períodos de retorno extremamente raros, como eventos de mil anos, e que devem manter sempre reservas de segurança para evitar o galgamento.

Ao mesmo tempo, salientou os limites das soluções de engenharia: “É impossível impedir uma cheia desta magnitude se a precipitação continuar. Não é possível construir uma barragem que impeça todas as cheias.”, uma vez que a precipitação prolongada conduz à saturação dos solos, reduzindo a infiltração e aumentando o escoamento superficial. Quando os solos estão saturados, praticamente toda a água precipitada escoa diretamente para os sistemas fluviais, acelerando o pico de cheia e aumentando a sua severidade. Nos casos de instabilidade de vertentes, solos saturados tornam-se mecanicamente mais vulneráveis, aumentando o potencial destrutivo dos movimentos de massa.

Paulo Diogo reforçou ainda que existe cartografia de risco previamente definida e que as áreas com elevada probabilidade de inundação estão identificadas em cartografia oficial, instrumento fundamental para apoiar decisões de evacuação preventiva e medidas de proteção civil.

Com esta intervenção, Paulo Diogo contribuiu para reforçar a compreensão pública do risco hidrológico, da gestão de infraestruturas e da importância da prevenção num contexto de eventos meteorológicos extremos cada vez mais intensos. A mensagem final foi clara: o risco de cheia tende a desaparecer do debate público quando as águas baixam, mas a monitorização, a preparação e a articulação entre autoridades técnicas e proteção civil devem manter-se como prioridades permanentes.

 

Ouça a entrevista aqui.

 

Texto: João Pequeno

     

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