As recentes inundações e estragos provocados pelo mau tempo estiveram em destaque na revista de imprensa da TSF, com a participação de Pedro Raposo de Almeida, Diretor do MARE e do ARNET – Rede de Investigação Aquática.
Ao explicar a escolha das notícias, o investigador sublinhou que estes fenómenos fazem parte da nossa história coletiva, mas que tendemos a esquecê-los. “Temos que saber conviver com a natureza”, afirmou, alertando para a ideia de que o avanço tecnológico nos dá a sensação de que conseguimos controlar tudo.
Na sua perspetiva, o problema não está apenas na intensidade da chuva ou na força dos rios. Está também na forma como ocupamos o território e na preparação para lidar com situações adversas. Defendeu a necessidade de planos de contingência, simulações e maior preparação das populações para saberem como agir.
Ordenamento do território e preparação das populações
Durante a entrevista, Pedro Raposo de Almeida recordou que “o rio tem um leito menor e depois tem o leito de cheia” e que, periodicamente, precisa de ocupar esse espaço adicional. Ao longo de vários anos, a redução da frequência de pequenas cheias contribuiu para uma falsa sensação de segurança.
Reconhecendo o papel das infraestruturas hidráulicas, foi claro quanto aos seus limites: “Podemos retardar com as barragens, mas não podemos impedir, sobretudo, as grandes cheias.”
Defendeu que o ordenamento do território deveria ter sido feito há muito tempo, retirando as pessoas das zonas de risco, e sublinhou a importância de preparar as comunidades para saberem responder quando os eventos extremos ocorrem.
Lampreia: muita água, pouco peixe
No final da conversa, a época da lampreia trouxe a discussão para o estado das populações e para a atividade piscatória.
Pedro Raposo de Almeida explicou que, se existissem populações robustas, anos de elevado caudal poderiam ser favoráveis. No entanto, a situação atual é distinta: “Temos muita água, mas temos pouco peixe.”
Recordou ainda que a lampreia tem um ciclo de vida longo, de cerca de sete anos, o que significa que não é possível acelerar a recuperação quando as populações estão fragilizadas.
A intervenção na TSF reforçou a ideia de que os fenómenos naturais extremos fazem parte da dinâmica dos sistemas fluviais e costeiros, mas que a forma como o território é gerido e como as pessoas estão preparadas faz toda a diferença na forma como esses eventos são vividos.
Ouça o episódio aqui
Texto Vera Sequeira