Estudo internacional sobre uso de beatas de cigarro por aves urbanas, destacado no The New York Times

Um novo estudo publicado na revista Animal Behaviour e recentemente destacado no The New York Times explora um comportamento surpreendente observado em aves que vivem em ambientes urbanos: a utilização de beatas de cigarro na construção dos ninhos. A investigadora Ana Cláudia Norte, do MARE – Universidade de Coimbra, integrou a equipa internacional liderada pela Universidade de Łódź (Polónia) que conduziu esta investigação pioneira.

O trabalho procura compreender de que forma as aves, em particular o chapim-azul (Cyanistes caeruleus), recorrem a materiais presentes no lixo urbano para enfrentar desafios ecológicos, nomeadamente a presença de ectoparasitas nos ninhos. Em habitats naturais, esta espécie é conhecida por incorporar plantas aromáticas ricas em compostos voláteis para reduzir a carga parasitária. No entanto, em contexto urbano, as aves encontram recursos alternativos, entre eles, resíduos de tabaco, frequentemente referidos como repelentes de insetos.

Um estudo experimental para avaliar efeitos fisiológicos e parasitários

A equipa testou dois cenários experimentais:

  • adição de beatas de cigarro aos ninhos naturais;
  • substituição do ninho natural por um ninho artificial esterilizado, composto por musgo e algodão.

Os investigadores avaliaram indicadores de condição fisiológica das crias, como níveis de hemoglobina, hematócrito, glicose e índice de condição corporal, e quantificaram a presença de ectoparasitas (carraças, ácaros, pulgas e larvas de moscas).

Os resultados revelaram que:

  • as crias em ninhos com beatas e em ninhos artificiais apresentaram melhor condição fisiológica, com níveis mais elevados de hemoglobina e hematócrito;
  • os ectoparasitas foram mais abundantes nos ninhos naturais, menos frequentes nos ninhos com beatas e praticamente ausentes nos ninhos esterilizados;
  • observou-se ainda uma redução das larvas de mosca nos ninhos com beatas, embora este efeito tenha sido marginal.

A adaptação das aves às cidades

O estudo reforça a ideia de que as aves são capazes de modificar ativamente o seu ambiente, ajustando comportamentos e estratégias de nidificação às condições urbanas. Embora o uso de beatas possa conferir alguma proteção contra parasitas, os autores sublinham que este comportamento resulta da exposição a resíduos humanos e não deve ser interpretado como benéfico em termos ecológicos ou de saúde ambiental.

A participação de Ana Cláudia Norte evidencia o contributo do MARE para investigações internacionais que aprofundam a compreensão da ecologia urbana e das respostas da fauna às pressões humanas.

 

Texto Zara Teixeira

Foto de capa Gabriel Almanzar na Unsplash

     

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