“É na fonte, em casa de cada um de nós, que temos de fazer diferente.”
Foi assim que Ana Silveira, investigadora do MARE/ARNET e professora da NOVA FCT e , sintetizou o ponto central do debate no episódio de 4 de fevereiro de 2026 do Sociedade Civil, transmitido pela RTP.
O programa reuniu José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Marta Neves, CEO da EGF – Empresa Geral do Fomento, S.A. e Ana Silveira para discutir um tema que deixou de ser apenas ambiental para se tornar estrutural: a capacidade do país para gerir os seus resíduos num contexto de metas europeias exigentes e capacidade limitada de aterro.
Portugal produz cerca de 1,5 kg de resíduos por pessoa por dia, mais de 500 kg por ano. No total, ultrapassa os 5 milhões de toneladas anuais. Cerca de 60% continuam a ser depositados em aterro. Em vários sistemas, a capacidade disponível está estimada em cinco a seis anos.
Ao mesmo tempo, o país terá de atingir 60% de reciclagem até 2030 e reduzir a deposição em aterro para 10% até 2035. A diferença entre o ponto de partida e as metas é clara.
Durante o programa, Ana Silveira chamou a atenção para um equívoco recorrente: a ideia de que, mesmo que o lixo seja colocado no contentor indiferenciado, a separação será feita mais tarde nas centrais de tratamento.
Do ponto de vista técnico, isso tem limites. Quando as embalagens seguem misturadas com restos alimentares, chegam contaminadas às instalações. Mesmo que sejam posteriormente separadas, o material resultante tem menor qualidade e menor valor. Produzir plástico com as mesmas características iniciais torna-se inviável. O processo torna-se mais dispendioso e menos eficiente.
Hoje, grande parte dos resíduos acaba no chamado “saco preto”. Sem melhoria da separação na origem, é difícil aumentar a taxa de reciclagem de forma consistente.
Mas a discussão não se ficou pela separação. A investigadora sublinhou que o problema começa no momento do consumo. Uma parte significativa do lixo doméstico corresponde a restos alimentares e embalagens de vida útil muito curta. Reduzir o consumo de descartáveis, optar por soluções reutilizáveis e gerir melhor os alimentos em casa têm impacto direto na quantidade de resíduos produzidos. Reciclar é necessário. Reduzir continua a ser prioritário.
Foi também destacado o papel dos municípios, sobretudo na recolha de bioresíduos. A proximidade com o cidadão pode facilitar a implementação de soluções adaptadas ao território e melhorar o envolvimento da população.
Ana Silveira referiu, ainda, a importância de monitorizar o sistema e de comunicar resultados de forma clara. Caracterizações regulares de resíduos permitem perceber onde estão as falhas e ajustar estratégias.
O debate deixou uma conclusão simples: a gestão de resíduos não depende apenas de infraestruturas ou de tecnologia. Depende de decisões diárias tomadas na origem.
Episódio completo aqui
Texto: Vera Sequeira
Imagem Sociedade Civil