MARE leva a expedição Navio Escola Sagres a tomar parte do mundo científico

À semelhança de Fernão Magalhães há 500 anos, quando realizava a primeira expedição marítima que deu a volta ao mundo, também os cadetes da Marinha Portuguesa pretendem descobrir, assinalando este facto histórico. Partiram, no Navio Escola Sagres, a 5 de janeiro de 2020.

 

O MARE não se alienou de tal experiência. E por isso, às perguntas: o que indica a cor do mar? Qual a quantidade de microalgas na coluna de água? Quão contaminado está o oceano? procurará responder com análises que serão realizadas nessa viagem.

 

“A bordo”, o Centro de Ciências do Mar e do Ambiente tem dois projetos: “A cor do mar como indicador da quantidade de Plâncton”, liderado pela investigadora do MARE, Vanda Brotas; e “Presença de contaminantes inorgânicos ao longo da rota marítima de Fernão de Magalhães”, liderado pelos investigadores Bernardo Duarte e Vanessa Fonseca.

 

A cor refletida pela superfície do oceano depende da própria água, de partículas inorgânicas em suspensão, de matéria orgânica dissolvida e da quantidade e tamanho das células de Fitoplâncton (constituído por microalgas fotossintéticas, é a base da cadeia trófica do oceano). Pelo que, a bordo do Sagres e com o acompanhamento do MARE-FCUL em terra, no âmbito da área Citizen Science, foram desenvolvidos projetos que pretendem trazer aos cidadãos a capacidade de medir a cor do oceano.

 

Baseado num programa internacional já testado, o utilizador tira uma fotografia à superfície do mar, a seguir compara a cor da sua fotografia com uma escala de cores. Escolhe a cor mais parecida, e envia os dados. E são esses dados que servirão de amostra para o estudo (e que serão também integrados no projeto a decorrer iFADO (Innovation in the Framework of the Atlantic Deep Ocean, que tem acordo com o Eyeonwater).

 

Mais tarde todos os dados recolhidos podem ser descarregados, sendo que as imagens fotográficas obtidas darão indicação da quantidade de clorofila (o pigmento fotossintético universalmente presente em todas as classes taxonómicas de microalgas), e por consequência, da quantidade de microalgas na coluna de água.

 

No Laboratório, a equipa do MARE-FCUL, com apoio de parceiros internacionais, irá obter a imagem de satélite correspondente ao dia e local da colheita, com o valor da concentração em clorofila determinado pelo sensor de cor (OLCI) dos satélites Sentinel 3, da Agência Espacial Europeia.

 

Já o segundo projeto - Presença de contaminantes inorgânicos ao longo da rota marítima de Fernão de Magalhães – pretende avaliar o grau de contaminação do Oceano, com base na quantificação de contaminantes inorgânicos (metais pesados) e orgânicos diretamente ligados à presença humana (resíduos farmacêuticos), em águas recolhidas ao longo do percurso marítimo anteriormente seguido por Fernão Magalhães.

 

Uma vez que a rota efetuada por Fernão Magalhães se aproxima de zonas com elevada pressão antrópica, além das zonas oceânicas relativamente afastadas da costa, será possível perceber o impacto dos centros urbanos costeiros nos ecossistemas marinhos a uma escala global e sem precedentes. Será possível obter dados de contaminação marinha para várias zonas do globo, sendo que para muitos locais será inclusivamente o primeiro registo e a primeira avaliação do nível de contaminantes.

 

Esta informação permitirá mapear a pressão antrópica a que os ecossistemas marinhos ao longo da Rota estão expostos e ainda correlacionar estes dados com outros que serão recolhidos pelas restantes equipas científicas ao longo do percurso (e.g. a presença de determinados organismos em ambientes potencialmente contaminados por metais e metalóides tóxicos).

 

A recolha de amostras de água ao longo da rota marítima de Magalhães terá como pontos alvo zonas costeiras de maior densidade populacional (e.g. portos de acostagem) e de oceano aberto, previamente acordados com a tripulação tendo em conta possíveis limitações logísticas.

 

Para este fim foram fornecidos à tripulação do Navio-Escola Sagres kits de amostragem bastante simples de forma a que qualquer tripulante possa fazer as recolhas de águas para análise de contaminantes em condições sem comprometer a análise dos mesmos.

 

Estes projetos inserem-se no CIRCULARES: um projeto de ciência-cidadã que envolve diversas áreas científicas. Para além do MARE, fazem também parte o cE3c, o Instituto Dom Luiz, o CIUHCT, a Sociedade Portuguesa de Ecologia e a empresa Senciência.

 

*Imagem: Navio Escola Sagres, Marinha Portuguesa