Lia Vasconcelos e a investigação marinha: a comunicação de ciência coopera “para a interiorização das aprendizagens contribuindo para a mudança de atitudes e comportamentos”.

 

Lia Vasconcelos conta a sua história na primeira pessoa. Criada junto do mar, o apreço que lhe tem sempre foi grande. As inquietações que mais tarde surgiram deram aso à investigação.

Antecedentes
O Mar, mais do que a investigação propriamente dita, foi central na minha vida. Nasci e fui criada junto ao mar, e como tal tive uma infância e adolescência em que a praia, os desportos náuticos e os tempos de lazer tiveram como palco os contextos marinhos. Como o clima era tropical, vivia o mar durante o ano todo.
 
Foco e inquietações
Tendo durante anos trabalhado em questões de conflitos ambientais, a forma como a informação e o conhecimento eram usados foi uma preocupação fulcral no meu percurso. Porque é que certa informação/conhecimento era usada e outra não? O que fazia as pessoas usarem determinada informação/conhecimento em detrimento de outro? Qual o fator que estava aqui em jogo? E a partir daqui como podíamos melhorar a informação/conhecimento disseminado na sociedade para resolver as questões ambientais em contextos complexos?
Esta inquirição levou-me a áreas que procuram compreender como é que o conhecimento é construído (e.g., Bernestein, Berger e ‎Luckmann), o que hoje se apelida de construção da inteligência coletiva, passando pela relevância do significado (meaning) desse conhecimento para quem o usa. Mais tarde, visando a promoção de comunidades de prática (e.g., Lave e Wenger) resilientes enveredei por questões relacionadas com as formas de aprendizagem coletiva emancipatória (e.g. Paulo Freire).
Hoje foco a minha investigação em processos inovadores de decisão, desenvolvendo metodologias para mobilizar e envolver multi-stakeholders em processos colaborativos visando novas formas de governância em políticas públicas colaborativas. Estes processos além de promoverem comunidades de práticas tornando a sociedade mais resiliente oferecem espaços de aprendizagem ao permitir a coexistência e o fluxo de diversos tipos de conhecimento e um processo genuíno de construção de novo conhecimento.
Atualmente, ao colocarmos uma ênfase especial na comunicação da ciência, estes processos assumem um papel relevante ao permitir intensificar essa mesma comunicação, e ao contribuírem para a interiorização das aprendizagens contribuindo para a mudança de atitudes e comportamentos.
 
Mudança de Paradigma
A investigação marinha assumiu uma importância de destaque no meu percurso, quando em 2008 o Projecto MARGov: Modelo de Governância Colaborativa, que coordenava, ganhou o Galardão Gulbenkian/Oceanário de Lisboa: Governação Sustentável dos Oceanos. A atribuição deste reconhecimento a um projeto que colocava a ênfase nas pessoas tornava visível uma alteração de paradigma, atestando a relevância da componente humana na investigação marinha.
 
Momentos de desânimo – ultrapassar desafios
Isso nunca me aconteceu, sempre soube que conseguia ultrapassar as dificuldades, deste modo elas sempre funcionaram para mim como desafios.
 
O MARE é a minha “casa” …
O MARE para além de centrar a investigação - a minha investigação no mar, - este Centro destaca-se por reunir em rede uma diversidade de instituições em vários pontos do país numa gestão descentralizada, e por cultivar uma interdisciplinaridade que vai para além da biologia, geologia e ciências da atmosfera, comuns noutras unidades de investigação de ciências do mar, respeitando simultaneamente a individualidade e a iniciativa de cada elemento.
 
Governança e Literacia no MARE
A linha temática Governança e Literacia lida com a componente social nos processos/projetos contribuindo para a inovação em instrumentos e políticas, em quatro áreas de investigação: políticas, instrumentos e estruturas institucionais; dinâmicas sociais e estudos de governância; comunicação de ciência e construção de conhecimento; e dinâmicas socio-ecológicas. Sendo transdisciplinar apoia-se numa investigação de ação-investigação de abordagem quantitativa e qualitativa, apostando em processos decisórios e de governância multinível.
Visa estimular a investigação em Governância e Literacia encorajando metodologias inovadoras; assegurar a capacitação da sociedade civil em Governância e Literacia, nomeadamente das comunidades, instituições e empresas; impulsionar a construção de Redes de Governância e Literacia contribuindo para a construção do capital coletivo - social, intelectual e político – e para a inovação científica e tecnológica; criar modelos alternativos de Governância e Literacia privilegiando comunidades costeiras, enfatizando o carater diferenciador gerador de transformação social; e promover a Governância interna do MARE contribuindo para reforçar o carater multidisciplinar do Centro.
Sendo uma linha que visa a mobilização e envolvimento da sociedade alargada promovendo a colaboração e co-construção de um futuro sustentável para o mar assume um carater diferenciador e complementar gerador de transformação social. A relação com os Oceanos e a sustentabilidade dos mesmos, depende não só das atitudes e comportamentos dos humanos, bem como se organizam contribuindo para a sua gestão sustentável e as decisões que se tomam para governar o recurso, recurso, nas suas múltiplas dimensões.
 
Livro que pode mudar o mundo: Zaid Hassan (2014) The Social Labs Revolution – a new approach to solving our most complex challenges, Berrett-Koehler Publishers, Inc
 
Onde seriam as melhores férias de sempre: Junto ao mar.
 
Animal preferido: Todos