Investigadores alertam: declínio de espécies diádromas terá impacto socioeconómico negativo

 

Depois de quatro anos de investigação, foram apresentados dia 1 de junho os resultados do projeto DiadES. Financiado pelo programa europeu Interreg Espaço Atlântico, tinha como principal objetivo contribuir para uma gestão eficaz das espécies diádromas na costa atlântica, em ambiente de alteração global. Contou com um investimento de três milhões de euros e com a colaboração de cinco países, grupo em que se inclui Portugal, com as bacias hidrográficas do Mondego e do Minho. Para além de diretrizes para uma gestão a longo prazo, destacaram-se, também, a apresentação de ferramentas de gestão e sensibilização como um atlas interativo, um conjunto de vídeos e um jogo de tabuleiro.

 

Financiado pelo programa europeu Interreg Espaço Atlântico, o projeto DiadES tinha como objetivo avaliar e melhorar os serviços dos ecossistemas prestados pelas espécies diádromas (espécies que repartem a vida entre águas doces e salgadas, como é o caso da enguia, da solha, do sável ou do salmão-do-atlântico) ao longo da costa atlântica europeia e, paralelamente, o seu estado de conservação, tendo em conta o impacto das alterações climáticas na sua distribuição. Contou com a cooperação de investigadores das ciências naturais e economistas ambientais e reuniu uma rede de gestores de espécies diádromas de cinco países – Irlanda, Inglaterra, França, Espanha e Portugal. Em Portugal, o caso de estudo do Mondego foi coordenado pelo MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Os investigadores detetaram um declínio generalizado destas espécies relacionado com as alterações globais. “Como partilham o seu ciclo de vida entre a água salgada e a água doce, as espécies diádromas estão sujeitas a uma mortalidade associada às atividades humanas nestes dois meios, bem como no estuário”, explica a investigadora do MARE-UÉvora Catarina Mateus. Ameaças que incluem sobrepesca, poluição da água, espécies invasoras, alterações climáticas e construção de barragens”.

Em toda a costa Atlântica, a situação da maioria das espécies diádromas é alarmante. Um declínio quase generalizado da abundância com impactos socioeconómicos negativos como a perda de empregos no sector das pescas, o fim da produção de caviar de esturjão europeu, a diminuição das licenças de pesca recreativa e do número de turistas locais, bem como o desaparecimento de práticas culturais ligadas a estas espécies, como os festivais.

Próximos passos

Os quatro anos de estudo permitiram identificar cinco pilares de orientação, que os responsáveis pela investigação esperam ver implementadas: produção de conhecimento conjunto, utilização dos atuais instrumentos de coordenação internacional, adaptação das medidas de gestão local, partilha competências e conhecimentos, e sensibilização, educação e comunicação.

Produção de conhecimento conjunto | Coprodução de conhecimentos que possam apoiar a gestão a longo prazo e em grande escala das espécies diádromas. Foram identificadas as seguintes necessidades de investigação: interconexões ao longo do continuum terra-oceano e entre populações para avaliar os níveis de interdependência entre habitats e populações, uma avaliação mais abrangente dos serviços dos ecossistemas, incluindo os serviços "ocultos" e as ligações entre locais de produção e consumo de serviços, e os efeitos das interações entre as alterações climáticas e outras pressões, incluindo as perturbações da conectividade.

Utilização dos atuais instrumentos de coordenação internacional | Melhorar a utilização dos instrumentos de coordenação internacional (por exemplo, o CIEM ou o Comité Internacional de Exploração do Mar e os seus grupos de trabalho), especialmente no caso das espécies para as quais os dados são escassos (por exemplo, lampreia-de-rio, esperlano, solha-das-pedras).

Adaptação das medidas de gestão local  | As estratégias de gestão à escala local devem abordar as três categorias de serviços dos ecossistemas prestados por todas as espécies diádromas presentes num território. A definição e a aplicação das ações de gestão devem integrar, por um lado, as interdependências territoriais entre as populações de peixes e, por outro lado, as imposições a médio e longo prazo das alterações climáticas. A revisão das estratégias de gestão deve ser concebida para fazer face a problemas imprevistos decorrentes de alterações das condições ambientais e sociais.

Partilha de competências e conhecimentos  | Os gestores devem partilhar com as unidades de gestão vizinhas a sua estratégia de gestão, o estado das populações que gerem, bem como os sucessos, os "não resultados" e os fracassos das ações de gestão aplicadas localmente. Para o efeito, devem ser imaginadas novas "arenas" a nível regional, nacional, transfronteiriço e internacional. Tal daria a oportunidade de definir soluções conjuntas para problemas comuns.

Sensibilização, educação e comunicação | Cidadãos mais informados e mais preocupados podem incentivar os gestores a encontrar um equilíbrio entre as questões socioeconómicas e ambientais. Gestores conscientes da diversidade e da complexidade das situações atuais e futuras estarão mais aptos a tomar as decisões mais adequadas para a viabilidade das populações e a sustentabilidade da sua exploração.

Ferramentas de apoio à gestão e à sensibilização

A par da apresentação dos resultados e da sugestão das diretrizes de gestão a aplicar a longo prazo, a cerimónia contou também, com a apresentação de ferramentas de gestão e sensibilização, desenvolvidas pelos responsáveis pelo projeto ao longo dos últimos anos:

WebAtlas Interativo – permite a avaliação de serviços ecossistemas nos casos de estudo, a consulta e simulação da distribuição das espécies no futuro e no presente e a monitorização de pressões com origem humana. Pode ser utilizado em qualquer fórum para ajudar os cientistas e as partes interessadas a alargar as suas perspetivas sobre possíveis futuros dos peixes migradores diádromos. Está disponível aqui.

Jogo de tabuleiro DiadESland – promove a discussão sobre a gestão de espécies diádromas a longo prazo e em grande escala  e contribui para a identificação de estratégias emergentes

 

Documentários – foram realizados cinco filmes para informar e sensibilizar um vasto público para estas questões a que pode assistir aqui. Foi desenvolvido um filme animado que resume os principais resultados do projeto.