“É a altura ideal para promover e valorizar outras espécies”

 

Se o sector das pescas já “viu” melhores dias, esta é uma boa altura para mudar o rumo desta situação refere o investigador do MARE Leonel Gordo na entrevista que dá ao Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Embora tenha trabalhado em espécies estuarinas e lagunares costeiras, essa temática nunca foi o foco da sua investigação principal. Começou a trabalhar em espécies costeiras comerciais durante o seu estágio de licenciatura e assim se manteve ao longo da sua carreira. Trabalhou em espécies pelágicas, demersais e de profundidade, quer teleósteos quer elasmobrânquios. Entrou “no mundo” das espécies lagunares em 1992, após o seu doutoramento e por uma questão de economia de recursos (eram espécies sem custos de aquisição a não ser o envolvido com o pagamento ao pescador para aluguer da embarcação) manteve-se exclusivamente nesta temática por três anos. Depois desse período voltou ao estudo das espécies comerciais, o seu interesse inicial, pois esteve sempre empenhado em contribuir para o melhoramento do conhecimento das espécies comerciais, tendo em vista uma racionalização da exploração dos recursos, o que passa naturalmente por uma melhor avaliação e gestão dos mesmos.

 


     Coordena a linha temática Aquacultura e Pescas. Pode precisar de que se trata?

A linha temática de investigação (LTI) em Aquacultura e Pescas foi criada em 2017, no seguimento da mudança de direcção do MARE, e com a necessidade de reformulação das linhas então existentes. É uma área temática que agrega um número significativo de investigadores (mais de 80), com uma representatividade sensivelmente idêntica nas duas componentes pesca e aquacultura. A aquacultura e pescas insere-se numa grande área temática global que aborda o estudo dos recursos e constitui uma área de grande importância para o País. Os membros da LTI trabalham em temas diversos, mas de grande aplicação prática, desde os estudos de estrutura populacional, à pequena pesca, à valorização das espécies com pouco ou nenhum interesse comercial, à estrutura de comunidades estuarinas, à cultura de novas espécies, à cultura de algas, à nutrição em aquacultura, ao cultivo de percebes, ao estudo de espécies invasoras, só para citar alguns exemplos.

 

     O que o fascinou e ainda o fascina hoje em dia neste mundo da investigação? A criatividade é (alguma vez foi) solução para a investigação?

A investigação é, e será sempre, um desafio constante. Trabalho numa área em que a interdisciplinaridade é fundamental e essencial para o progresso do conhecimento. É uma área em que o trabalho em grupo se revela imprescindível e, não falo apenas do pequeno grupo laboratorial que está empenhado na resolução de uma questão concreta, mas das pontes que são necessárias criar com colegas de outras instituições para a concretização de ideias e resolução de questões concretas. É aqui que entra a criatividade.

 

     O sector da pesca já viu melhores dias. Os limites de capturas, nomeadamente devido à extensão das espécies, nem sempre facilitam o mercado, mas o oposto (a falta de limites) não coopera com os oceanos e com as espécies. Qual é a sua posição em relação a todo este panorama? Enquanto investigador, qual acha que deveria ser o rumo a tomar?

A pesca tem sido responsável pela deplecção das espécies e, desde há 50 anos para cá, a percentagem de recursos fora dos limites biológicos sustentáveis passou de 10% para cerca de 35%. Dos cerca de 65% de recursos que estão dentro dos limites de sustentabilidade, mais de 80% estão a ser explorados na sua máxima capacidade o que, ao menor deslize, passarão a integrar o número dos não sustentáveis. Assim, o foco, a meu ver, deverá passar pela reabilitação (recuperação) dos recursos que estão em situação mais delicada, com medidas de gestão efectivas mas lembrando que os pescadores fazem parte do  sistema a que chamamos pescaria e toda a solução deverá passar por um entendimento entre todos os intervenientes do sector, ou seja, com representantes da administração, dos cientistas e dos mestres/pescadores.

Outro aspecto muito importante tem que ver com as espécies que já não aguentam uma maior exploração e cuja recuperação passa pela imposição, necessária, de períodos de ausência de exploração. É a altura ideal para promover e valorizar outras espécies que ainda não estão em situação crítica e que poderiam substituir aquelas em termos de mercado. Importa por isso estudar outras opções de recursos ainda não valorizados e que do ponto de vista nutricional seriam opções igualmente interessantes a desenvolver. 

 

      Como é o seu dia-a-dia como investigador? Entre as saídas de campo, as estâncias no laboratório e os momentos ao computador, como articula o seu trabalho?

O meu dia-a-dia é, hoje, mais ao computador que no laboratório. Creio que é a sequência natural da vida de investigação associada à idade do investigador… Coordeno uma equipa fantástica em que conversamos e discutimos muito o trabalho a desenvolver pelo que o trabalho laboratorial ocorre mais nesses períodos de debate do que propriamente numa rotina laboratorial. No trabalho de campo, e embora seja o mais velho de todos, continuo a participar e vou, sempre com muito gosto, embora já me custe, especialmente o trabalho de lota, de escolha das melhores caixas para a amostragem biológica ou de amostragem de comprimentos nos desembarques. É um trabalho muito cansativo e que obriga a levantar caixas de 20 kg, às vezes com uma frequência superior à desejável…

 

      Como é que a sua família e os seus amigos veem a sua profissão?

Veem com interesse, sabendo que é um trabalho aplicado. Relativamente à família, e após 40 anos de trabalho, não se conseguiram ainda habituar ao cheiro a peixe que fica no carro após as amostragens. A mim já não me cheira a nada…

  

      Se tivesse de aconselhar os leitores, qual seria o conselho ambiental que lhes daria? 

A política dos 3 R: Reciclar, Reduzir e Reutilizar a que acrescentava um V de Valorizar