E se cientistas e crianças pudessem trocar cartas?

A língua portuguesa é falada por cerca de 270 milhões de pessoas em todo o mundo. Será que temos ideia disso? E de que a ciência é para todos e deveria chegar a todos? Foi tendo em conta estas questões que se fundou o projeto Cartas com Ciência inaugurado no dia 5 de maio de 2020, o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa. E assim promove o português como língua de conhecimento e de oportunidades. Trata-se de um programa de troca de cartas entre cientistas e crianças nos países de língua oficial portuguesa. Inspirar as crianças a considerar o ensino superior e as carreiras científicas é o grande objetivo do projeto que já conta com 600 cientistas e algumas turmas inscritas.

O projeto, criado por Mariana Alves e Rafael Galupa, é uma ponte de comunicação duradoura que pretende também reduzir as desigualdades no acesso ao ensino superior o que, na sua opinião, passa pela capacitação das crianças para que acreditem que podem ser cientistas. As crianças enviam a primeira carta e podem perguntar o que quiserem. E o projeto, que engloba turmas inteiras, devido à “política de não exclusão – queremos chegar mesmo àqueles que, de início, não tenham interesse em ciência e não apenas a um grupo de alunos que já têm interesse pela ciência”, divide-se em quatro cartas com temas: ensino superior, as carreiras científicas, a língua portuguesa e como ultrapassar obstáculos na educação.
 
“Agora, nos primeiros três anos, o nosso objetivo é fazer uma turma em cada país da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. A primeira coisa que as crianças fazem é preencher um questionário para sabermos os seus interesses científicos e lúdicos e, assim, com a informação desses formulários e as informações que temos dos cientistas (que têm uma pequena formação) vamos emparelhá-los, para que a correspondência seja a melhor possível, criando maior correspondência de identidade e interesses”, explica Mariana Alves.
 
Mas como surgiu a ideia para este projeto? “Eu e o Rafael, cientistas na Alemanha, estávamos envolvidos com a Native Scientist – uma organização sem fins lucrativos, fundada por investigadoras portuguesas no Reino Unido, que une cientistas e crianças migrantes através de workshops de ciência na sua língua materna”. E, entretanto, conheceram um projeto Letters to a Pre-Scientist que acharam incrível e inspirou a Cartas com Ciência. Este projeto é uma spinn off da Native Scientist, que apoia a Cartas com Ciência de várias formas enquanto a iniciativa cresce, sendo uma instituição já reconhecida.
 
As cartas começarão com uma escola em Portugal, uma em Timor. “O feedback dos alunos é incrível”, conta a fundadora que fez um teste piloto quando foi, em trabalho, à Nigéria e decidiu experimentar uma troca de cartas entre os alunos de uma escola que visitou e o EMBL, onde trabalha (Laboratório Europeu de Biologia Molecular). “As cartas eram muito engraçadas. O formato foi diferente porque só enviaram uma carta estilo pergunta, mas foi giro. As crianças fizeram perguntas giríssimas. Alguns enviaram tantas perguntas e tivemos tantos cientistas interessados que dividimos pelos cientistas”, revela. “Pelas cartas que já li e escrevi, acho que a melhor maneira de inspirar as crianças é sermos abertos, explicar que devem assumir o que gostam independentemente dos preconceitos, ou da dificuldade. E quebrar muitos mitos da ciência – Não, os cientistas não têm de ser todos génios, e os nossos projetos também têm partes frustrantes, mas valem a pena. Ensinar ou partilhar com eles coisas que achámos muito difíceis antes de as ultrapassarmos e as estratégias levadas a cabo para as conseguirmos são fulcrais”.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Peripécias? “eu trabalho com moscas e o meu “pen pal” (amigo por correspondência) questionou-me na carta se eu investigava leões e eu disse que não, e esforcei-me para o tentar fascinar com as moscas pois também é relevante estudar animais mais pequenos. E na carta seguinte voltou a fazer perguntas sobre o estudo com leões e onde os encontrava. Foi engraçado!” Obstáculos? Há sempre. Neste caso são predominantemente barreiras de financiamento e questões de logística. Mas a fundadora responde certeira e pragmaticamente: “é uma questão do projeto se adaptar de maneira a conseguir chegar a todos os países. Mesmo que em certos lugares não haja distribuição de correio, havemos de adaptar o formato. Precisamos de parcerias e apoios para este tipo de coisas pois não estamos no terreno, não sabemos.”
 
Carta aberta aos cientistas e à comunidade em geral:
 
Cientistas, não é todos os dias que têm a oportunidade de quebrar barreiras e preconceitos, inspirando jovens e ajudando-os a desenvolver as suas competências de investigação! O conselho: “Que as pessoas, no que quer que façam, pensem se estão a chegar a todos os que podiam chegar ou se no seu trabalho poderiam fazer mais pela redução das desigualdades. Acreditem na ciência e divulguem-na.” Quem sabe se para algumas crianças não será a primeira vez que enviam uma carta...
 
 
 
*Imagens de Raquel Correia