Em entrevista à Agência Lusa, a investigadora Rita Maurício do MARE/ARNET na NOVA FCT sublinhou que a crise global da água continua a afetar de forma desproporcionada mulheres e raparigas, com impactos na educação, na saúde, na dignidade e na participação social.
No âmbito do Dia Mundial da Água, assinalado a 22 de março, Rita Maurício, investigadora do MARE/ARNET e docente da NOVA FCT, chamou a atenção para uma dimensão muitas vezes invisibilizada da crise da água: a sua profunda ligação à desigualdade de género.
Em declarações à Agência Lusa, Rita Maurício recordou que, em muitas regiões do mundo, continua a caber sobretudo às mulheres e às raparigas a tarefa de procurar e transportar água. Este esforço diário representa um enorme custo social e humano, retirando tempo à escola, ao trabalho remunerado e a outras oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário.
A investigadora destacou também o impacto da falta de saneamento e de condições adequadas de higiene, particularmente para raparigas em idade escolar. Em muitos contextos, a ausência destas infraestruturas traduz-se em faltas frequentes, abandono escolar e agravamento de desigualdades já existentes, comprometendo o percurso educativo, a saúde e a dignidade de milhões de pessoas.
Mesmo nos países com sistemas de abastecimento e saneamento mais robustos, Rita Maurício sublinhou que persistem desequilíbrios de género na gestão do setor. A participação das mulheres nos espaços de decisão continua a ser insuficiente, apesar de a água ser um tema central para a saúde pública, a coesão social e a sustentabilidade.
No caso português, o panorama é muito diferente graças ao forte investimento realizado nas últimas décadas em infraestruturas de abastecimento e saneamento. Ainda assim, a comparação entre contextos tão distintos reforça a necessidade de olhar para a água como uma questão global de justiça, direitos humanos e responsabilidade coletiva.
Num momento em que os efeitos das alterações climáticas, a pressão sobre os recursos hídricos e o desaparecimento de glaciares intensificam vulnerabilidades, a mensagem é clara: não há futuro sustentável sem acesso seguro à água e ao saneamento, e não há verdadeira justiça hídrica sem igualdade de género.
Texto: João Pequeno