
O CESAM e a Universidade de Aveiro acolheram, no passado dia 13 de março, o 1.º Fórum de Investigação no Oceano, um encontro que reuniu investigadores, decisores ligados ao setor do mar e representantes de instituições científicas par
a refletir sobre as prioridades da ciência do mar em Portugal na próxima década.
A iniciativa reuniu os principais centros nacionais dedicados à investigação marinha — MARE, CESAM, CIIMAR, CCMAR e OKEANOS — com o objetivo de promover uma visão estratégica partilhada para a investigação marinha no país. Das
discussões e contributos apresentados ao longo do dia resultará um documento que reunirá as principais recomendações dos diferentes grupos de trabalho formados por representantes das cinco instituições científicas organizadoras do evento. Este documento será posteriormente entregue às tutelas, apresentando uma visão conjunta sobre as prioridades da investigação em Portugal na área do oceano para a próxima década.
José Guerreiro, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), apresentou algumas das linhas estratégicas do instituto e destacou o papel das infraestruturas nacionais de observação meteorológica e oceanográfica no apoio à ciência e à sociedade.
“Esta rede meteorológica é aquilo que assegura o modelo de gestão e aquilo que são as iniciativas da proteção civil, mas é também um apoio à economia.”
Ao longo da manhã foram apresentados os contributos dos vários grupos de trabalho. No domínio da gestão de recursos, biodiversidade e conservação, foram identificadas como prioridades o desenvolvimento de novos indicadores ecológicos, a necessidade de uma melhor compreensão dos impactos cumulativos das atividades humanas e o reforço de abordagens de gestão baseadas em ecossistemas. Estas conclusões foram apresentadas por Paula Chainho (MARE | ARNET, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), em representação do grupo.
“A investigação aplicada só existe se for sustentada por investigação fundamental sólida. Precisamos de consolidar o conhecimento sobre habitats, biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas.”
Seguiu-se a apresentação de Bernardo Duarte (MARE FCUL | ARNET) em representação do grupo de trabalho dedicado à poluição e impactos costeiros. Entre os principais desafios identificados estiveram a crescente diversidade de contaminantes presentes nos ecossistemas marinhos e a necessidade de integrar o estudo destes poluentes com os efeitos das alterações climáticas.
“Temos hoje uma miríade de contaminantes, alguns ainda pouco conhecidos, e precisamos de conhecimento científico integrado para responder a estes novos desafios.”

Entre as prioridades apontadas estão o reforço das redes de monitorização ambiental e a harmonização de dados recolhidos por diferentes instituições, para melhorar a avaliação de riscos e apoiar decisões de gestão.
Também presente no encontro, o Secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, destacou o papel central da ciência na construção de uma economia azul sustentável em Portugal. Na sua intervenção, sublinhou a importância de articular diferentes agendas, nomeadamente as relacionadas com o clima, a conservação e a economia, e defendeu que a investigação científica deve contribuir para identificar novos caminhos e validar soluções que permitam aproveitar o potencial da economia azul sem comprometer a proteção do ambiente.
Durante a tarde, o debate prosseguiu com a apresentação das conclusões do grupo de trabalho dedicado à gestão espacial de áreas marinhas e costeiras, por Adelaide Ferreira (MARE FCUL | ARNET | IPMA). O grupo destacou a rápida evolução do planeamento do espaço marítimo na última década e a necessidade de adaptar os modelos de governação às novas utilizações do oceano e às mudanças ambientais em curso.
“Estamos num momento histórico de potencial mudança. Precisamos absolutamente de mudar de modelos de gestão e planeamentos estáticos para modelos dinâmicos de governança que nos permitam formas de gestão adaptativa.”
Entre os desafios identificados estão a integração de novos usos do oceano, como as energias renováveis offshore, a implementação eficaz de áreas marinhas protegidas e o reforço da base científica que sustenta os processos de planeamento e gestão.
A sessão dedicada à educação e formação, apresentada por Rute Martins (CCMAR) e Ricardo Salgado (MARE | ARNET no Instituto Politécnico de Setúbal), analisou a oferta formativa nacional nas áreas das ciências e tecnologias do mar. O levantamento identificou 14 instituições de ensino superior com cursos nesta área, totalizando 25 licenciaturas, 22 mestrados e 17 doutoramentos. A análise revelou uma forte predominância das ciências do mar, em particular áreas como biologia marinha, ecologia e conservação, mas também algumas lacunas em domínios emergentes ligados à tecnologia e à economia do mar.
“Os cursos de primeiro ciclo são determinantes na formação. Se determinados temas ou competências não forem abordados nas unidades curriculares, os estudantes não vão ter as competências necessárias para realizar algumas tarefas.”
O programa também incluiu momentos de discussão entre os participantes. Num dos fóruns de discussão, dinamizado por Pedro Raposo de Almeida, diretor do MARE | ARNET, na Universidade de Évora, refletiu-se sobre as prioridades científicas e as necessidades de coordenação entre as instituições.
Na apresentação das conclusões gerais do encontro, Adelino Canário (CCMAR da Universidade do Algarve) destacou a forte convergência dos desafios identificados pelos diferentes grupos de trabalho e sublinhou a importância de transformar este exercício coletivo numa agenda científica estruturada para os próximos anos.
“Há uma grande convergência entre as prioridades identificadas pelos vários grupos. A qualidade do trabalho produzido foi muito elevada e temos já bastante material para avançar.”
A sessão de encerramento contou com a intervenção da Secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão, que sublinhou a importância de discutir, de forma articulada, o futuro da investigação científica e de preparar o sistema científico nacional para os desafios associados ao oceano.
“Discutir onde queremos estar daqui a dez ou vinte anos ajuda-nos a preparar o sistema científico para aproveitar as oportunidades.”
O 1.º Fórum de Investigação no Oceano constituiu, assim, um momento de reflexão coletiva entre as principais instituições científicas dedicadas ao mar em Portugal, contribuindo para identificar prioridades de investigação e reforçar a cooperação científica em torno dos grandes desafios do oceano nas próximas décadas.
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Texto: Vera Sequeira
Fotografia: Carlos Carneiro e Vera Sequeira