
As recentes tempestades, os episódios de precipitação constante e o aumento excecional dos caudais em várias bacias hidrográficas portuguesas estão a ter impactos em inúmeras infraestruturas urbanas e agrícolas. Também a investigação científica enfrenta constrangimentos operacionais e desafios metodológicos significativos, como é o caso da investigação desenvolvida pelo MARE -Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, em rios, estuários e zonas costeiras.
Do Minho ao Guadiana, as equipas que monitorizam qualidade ambiental, dinâmica sedimentar, espécies autóctones e invasoras e peixes migradores reportam perturbações que poderão traduzir-se em perdas de equipamento, interrupção de séries temporais e de trabalhos de campo e alterações ecológicas nos ecossistemas.
Infraestruturas sob pressão
Vários investigadores indicaram o potencial impacto nas estações e dispositivos instalados no terreno. No âmbito da infraestrutura COASTNET – Rede Portuguesa de Monitorização Costeira, existem sondas multiparamétricas, sistemas de amarração e recetores acústicos que podem ter sido deslocados, soterrados ou danificados devido ao transporte intenso de sedimentos e detritos.
“As cheias e o aumento excecional dos caudais registados em vários sistemas fluviais onde desenvolvemos atividade, sobretudo entre o Minho e o Tejo, têm o potencial de provocar perturbações significativas nas infraestruturas de monitorização que temos implementadas no MARE”, indica o investigador do MARE e do ARNET na Universidade de Évora, Carlos Alexandre.
Também Bernardo Quintella, investigador do MARE e do ARNET na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), sublinha a incerteza quanto ao estado dos equipamentos: “É provável que estas cheias tenham provocado, ou venham a provocar, perdas nos equipamentos instalados nos rios e estuários. Mas não conseguimos avaliar essa situação enquanto não voltarmos ao terreno.”
Embora na maioria dos casos ainda não tenha sido possível avaliar a magnitude dos danos, a experiência de anos anteriores indica que episódios desta natureza podem implicar perdas parciais ou totais de equipamentos e materiais, como é o caso dos painéis informativos (imagem ao lado) instalados para sensibilização ambiental no âmbito do Projeto LIFE Águeda, alguns deles já visualizados à deriva no Rio Vouga.
Noutras situações, a atividade foi diretamente interrompida. No estuário do Tejo, o caudal elevado impossibilitou a colocação mensal de redes e armadilhas para captura de caranguejo-peludo-chinês no âmbito de uma tese de mestrado em curso na Universidade de Évora sobre esta espécie invasora. Noutro rio do Norte, Joaquim Reis, investigador do MARE e do ARNET na FCUL, aponta para o risco de perda de dispositivos de retenção de juvenis de bivalves de água doce, comprometendo ensaios de monitorização sazonal e anual.
Há também contextos em que, até ao momento, não se registaram danos diretos ou impactos imediatos nos protocolos experimentais. Ainda assim, foram já identificados efeitos indiretos, nomeadamente assoreamento na albufeira do Açude Ponte de Coimbra, associado à dinâmica sedimentar intensificada.
No caso do rio Mondego, Pedro Proença e Cunha, Professor de Geologia na Universidade de Coimbra e coordenador do Grupo de Investigação de Geologia Sedimentar do MARE, tem vindo a sublinhar, em publicações recentes, que as cheias no Baixo Mondego não resultam apenas da intensidade da precipitação, mas também da forma como o sistema hidráulico é gerido e do modo como o território foi ocupado nas últimas décadas. Recorda que o Projeto Hidráulico do Mondego foi concebido para que uma cheia centenária — estimada em cerca de 3666 m³/s em regime natural — fosse amortecida para 1200 m³/s à passagem por Coimbra, através do sistema de barragens a montante e do canal com diques marginais construído entre Coimbra e a Figueira da Foz. Contudo, desde 1990, registaram-se por diversas vezes caudais superiores ao previsto em projeto, incluindo valores próximos ou superiores a 2000 m³/s em 2001, 2019 e 2026, o que debilita progressivamente as infraestruturas de defesa, como os diques. O investigador destaca ainda que a ausência de grandes inundações nas décadas posteriores à construção das barragens induziu uma ocupação imprudente das planícies de inundação, expondo populações e infraestruturas a risco significativo. Na sua perspetiva, as cheias fluviais não são “catástrofes naturais”, mas fenómenos inerentes à dinâmica dos rios, sendo o risco amplificado sobretudo pela ocupação humana das planícies aluviais e por opções de gestão que condicionam a capacidade de amortecimento dos picos de caudal.
Séries temporais e continuidade científica em risco
Grande parte da investigação desenvolvida pelo MARE em bacias hidrográficas assenta em séries temporais de longo prazo, fundamentais para avaliar as tendências ecológicas, a qualidade da água e os efeitos das alterações climáticas.
A deslocação ou perda de equipamentos fixos pode introduzir lacunas em registos contínuos, comprometendo a comparabilidade interanual e obrigando à adaptação de protocolos, reinstalação de dispositivos e ajuste de calendários de amostragem. A suspensão temporária de campanhas de campo, que envolvem a recolha de amostras biológicas ou ambientais, representa igualmente um constrangimento operacional relevante, no entanto, como indica o investigador do MARE e do ARNET na FCUL José Lino Costa, “pode levar a atrasos, mas esperamos que sem consequências de maior.”
Os investigadores evidenciam que eventos extremos fazem parte da variabilidade natural dos sistemas fluviais. O desafio, salientam, reside na sua possível intensificação em frequência e magnitude no contexto das alterações climáticas, o que pode exigir estratégias de monitorização mais robustas e resilientes.
Impactos ecológicos: riscos e oportunidades
Do ponto de vista ecológico, as cheias desempenham um papel ambivalente.
Pedro Anastácio, investigador do MARE e do ARNET na Universidade de Évora e Coordenador do Domínio de Investigação em Bacias Hidrográficas do MARE, recorda que “As cheias e os leitos de cheia fazem parte do ciclo natural hidrológico e da organização natural do espaço. É fundamental ter noção que são fenómenos quase impossíveis de controlar e que até em muitos casos contribuem para a conectividade hidrológica entre sistemas por vezes isolados.”
Em alguns casos, estes eventos podem até melhorar o recrutamento de determinadas populações, como bivalves de água doce, através da “limpeza” dos leitos fluviais. Contudo, como explica Joaquim Reis, podem também provocar mortalidade massiva por arrastamento, extinções locais temporárias, alteração da morfologia do leito e degradação transitória da qualidade da água.
Há ainda implicações relevantes no contexto das espécies invasoras. O aumento da conectividade entre sistemas pode acelerar a dispersão de organismos aquáticos não nativos. Foi referido, por exemplo, o risco potencial de dispersão do mexilhão-zebra para jusante no rio Tejo, caso eventos extremos facilitem o seu transporte a partir de áreas já invadidas em Espanha.
Para espécies migradoras estudadas pelo MARE e ARNET, períodos de caudal elevado podem representar tanto oportunidades como riscos, ao aumentar a conectividade e facilitar a subida nos cursos de água, mas também aumentando a instabilidade dos habitats.
José Lino Costa sublinha, ainda assim, a capacidade de recuperação dos sistemas: “Os ecossistemas dulçaquícolas, estuarinos e costeiros estão adaptados a este tipo de fenómenos, pelo que serão afetados temporariamente e depois recuperarão.”
Eventos extremos como oportunidade científica
Apesar dos constrangimentos operacionais, os investigadores convergem num ponto: estes episódios constituem, também, oportunidades científicas.A intensificação de fenómenos extremos permite testar hipóteses ecológicas frequentemente discutidas em contexto teórico, avaliar a resiliência das populações e dos habitats a perturbações abruptas e estudar processos de recuperação pós-evento.
Bernardo Quintella enquadra estes acontecimentos numa perspetiva estratégica: “Os acontecimentos recentes poderão contribuir para aprofundar o conhecimento sobre a dinâmica dos ecossistemas aquáticos sob cenários de maior variabilidade climática, alinhando-se perfeitamente com os objetivos estratégicos do MARE.”
Num cenário de crescente variabilidade climática, compreender como os sistemas dulçaquícolas, estuarinos e costeiros respondem a eventos extremos torna-se fundamental para sustentar políticas de gestão e conservação baseadas em evidência científica.